Abelhas sem ferrão: implementação do conhecimento para permitir a multiplicação

Necessitamos de um conhecimento mais amplo sobre as estratégias reprodutivas das abelhas sem ferrão. Trata-se de um grupo muito diverso, com cerca de 400 espécies na região neotropical.

Abordamos neste projeto o gênero Melipona, um dos maiores entre os Meliponini neotropicais. Estas abelhas são criadas experimentalmente em pequenas populações em S. Simão, e obtivemos avanços teóricos baseados em resultados da razão sexual em colônias estudadas em ambientes naturais e as submetidas ao isolamento e inbreeding. Também verificamos que parte das rainhas que são produzidas em grande número nestas abelhas saem vivas das colônias, ao contrário do que se pensava até o momento; podem ser fecundadas e entram em outros ninhos órfãos, onde são aceitas e tornam-se as rainhas das colônias (25% dos casos de substituição natural de rainhas!). Ainda nestes estudos com pequenas populações, efetuados com auxílio de ferramentas moleculares, verificamos que as operárias poedeiras produzem machos durante longo período, mesmo após a morte de sua mãe (Alves et al, 2009). Finalmente, machos diplóides foram encontrados nas duas populações, com um número muito maior na população isolada; mas esta, em contrapartida, produz um número de sexuados muito maior, o que facilita a substituição das rainhas que se acasalaram com seus irmãos e produzem machos diplóides.

O processo de multiplicação dos ninhos na natureza é feito através do processo de enxameação. Nos Meliponini, um novo local para a construção de ninhos é selecionado e as operárias constroem o ninho antes do enxame propriamente dito (rainha (uma ou mais de uma) acompanhada por operárias de todas as idades e machos) para lá se desloca. Neste componente, o estudo do uso de ninhos-armadilha para alojar enxames de Meliponini foi desenvolvido (Oliveira et al., 2009), e as publicações estão em preparação.  Até o momento estes ninhos-armadilha foram ocupados por enxames de Tetragona clavipes, Scaptotrigona bipunctata, Tetragonisca angustula, Frieseomelitta varia, F. silvestrii, Nannotrigona testaceicornis. Dentre os 434 ninhos de Meliponini existentes atualmente no campus, segundo última atualização do banco de dados do Prof. Dr. Ademilson Espencer Egea Soares, 36 (8,3%) enxamearam para os conjuntos que compõem os recipientes para os ninhos-armadilha.

Nos meliponários, um limite para a multiplicação de ninhos geralmente é o pequeno número de rainhas produzidas pela maioria dos gêneros de Meliponini. Por isso, foi desenvolvido o método para criação in vitro de rainhas de três espécies de abelhas sem ferrão que constroem células reais, com sucesso. Conseguimos mais de 90% de sobrevivência de rainhas obtidas in vitro, que são viáveis e fundam novas colônias. Para este estudo foi construído um meliponário experimental em Ribeirão Preto, de onde o alimento larval era obtido.  Houve um grande avanço nestas técnicas, básicas para a multiplicação dos ninhos em escala.

Quais as espécies que deveriam ser multiplicadas? Precisávamos de abelhas para uso em polinização. Estudos recentes realizados no México apontavam a Nannotrigona perilampoides como uma abelha eficiente na polinização de tomate, por exemplo. Até aquele momento, sabíamos que apenas algumas espécies de abelhas faziam polinização por vibração, necessária para produzir tomates, beringelas, pimentoes, etc (Silva et al, 2010). Mas a eficiência de uma espécie comum de abelhas indígenas como polinizadora em ambientes controlados (estufas) era uma indicação importante para o desenvolvimento de estudos experimentais. Por isso estudamos a multiplicação de rainhas in vitro de N. testaceicornis, com grande interesse comercial.

Mas como se caracterizava fisicamente esta polinização por vibração? Quais as espécies de abelhas nativas teriam maior valor comercial? A grande possibilidade de desenvolvimento desta parte do trabalho foi graças à presença do jovem pesquisador Michael Hrncir em Ribeirão Preto, especialista também em vibrações. O seu projeto FAPESP foi muito importante, e o Michael introduziu a Patricia Nunes Silva, doutoranda FAPESP, numa linha de pesquisas inédita, sugerida por nós: como avaliar a importância relativa de cada espécie de abelha para o uso como polinizador em estufas? O trabalho se desenvolveu com resultados excelentes.

Também o sistema de identificação automática dos Meliponini através da análise de morfometria geométrica das asas está em andamento. Este método permite, por exemplo, a identificação dos gêneros de Meliponini do campus da USP em Ribeirão Preto; de espécies dentro de um gênero; distingue os espécimes coletados em diferentes localidades, o que é de muita importância para rastreamento de espécies e deslocamentos fora de seu hábitat natural. In press (Apidologie) temos um estudo da abelha sagrada do México, M. beecheii, e as possibilidades de caracterização molecular e pelas asas, permitindo o rastreamento geográfico. Neste mês de julho foi publicada na prestigiosa PNAS um artigo (Bloch et al, 2010) onde o Tiago Francoy identificou, a partir de fragmentos das asas fossilizados, qual era a abelha criada em Israel naquela época. O jovem coordenador deste subprojeto está se destacando no cenário internacional e a técnica consolidada.